Fomos conhecer a Fazenda Santa Alina
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Julho é o mês em que a
reunião acontece no campo. É o momento de ver, cheirar, sentir o café em todo o
seu processo, da semente à xícara.
A visita deste ano foi programada para a Fazenda Santa Alina, propriedade de Tuca Dias, em São Sebastião da Grama, SP – Região Vulcânica, na divisa com Poços de Caldas. Chegar lá já é uma aventura. Aos poucos, vamos deixando para trás a cidade e o asfalto. Logo, a paisagem se altera entre café, oliveiras, mata nativa e tantas outras espécies que cruzam nosso caminho. Aqui, o ar tem outro perfume, tanto quanto o silêncio tem outro som.
Infelizmente, Tuca não pôde estar conosco, mas fomos muito bem recebidas por Edvaldo, gerente da fazenda, um perfeito cicerone! Ele nos contou detalhes da história do lugar e nos levou a conhecer todo o processo de produção do café da Santa Alina.
Edvaldo nos recebeu no escritório da fazenda, cuja fachada causa impacto pelo jardim tão bem cuidado que leva para o interior a mesma atmosfera: cores, frescor e alto astral. Obras de arte popular brasileira, cuidadosamente espalhadas no ambiente, criam uma aura satisfatória para quem trabalha com os números e toda a criatividade para que as engrenagens da Santa Alina funcionem em harmonia.
A propriedade está na família
desde o início dos anos 1900. Pertencia ao bisavô de Tuca. Com uma colônia de
70 casas, além da sede, era uma fazenda de produção de café que estava prestes
a ser vendida. Foi quando, em 2010, entra em cena uma mulher decidida a
reconstruir e tornar a fazenda produtiva e autossustentável. Tuca é a quarta
geração desta família que se dispõe a produzir café. Arquiteta de formação, sem
grandes conhecimentos na produção agrícola, mudou-se da capital paulista para
uma das casas da Santa Alina e começou seu trabalho de reconstrução, planejando
uma estratégia eficiente para que as contas fechassem. Surge, então, uma líder
cheia de energia, de mente agitada e criativa, certa de que precisava das
pessoas para que seu projeto fosse bem-sucedido. Acreditando no potencial de
cada um, muitas vezes desconhecido pelos próprios, investiu nas pessoas que ali
estavam e que se dispuseram a seguir com ela. Ofereceu-lhes as ferramentas para
potencializá-las, desenvolver autonomia e se realizarem.
A paisagem da fazenda também
sofreu alterações. As cercas que rodeavam as casas da colônia foram retiradas,
as paredes pintadas, as janelas abertas, os jardins reconstruídos. A mudança
não era apenas física, significava uma transformação no interior de cada
morador. Cuidado, respeito, bem-estar. Afinal, arquitetura é a arte de
construir espaços para atender às necessidades humanas, unindo segurança,
funcionalidade e estética. Sim! Tuca trouxe a beleza para o dia a dia dessa
população. Infelizmente, como era de se esperar, nem todos estavam preparados
para a mudança, ou para serem comandados por uma mulher. Assim, muitos deixaram
a fazenda.
Mudanças radicais ocorreram também na lavoura. Com muita coragem e vontade de acertar, pés foram arrancados, o campo foi reorganizado, novas variedades chegaram, assim como novas técnicas de manejo foram implantadas para receber a mecanização.
A Fazenda Santa Alina
dedica-se à produção de café especial. Seus grãos já ganharam prêmios em
concursos e, em geral, atendem ao consumidor do exterior – vale lembrar que
nossa confreira Mônica flagrou uma xícara numa cafeteria em Varsóvia, na
Polônia.
Dos terreiros, caminhamos até
a Casa Alma. Circundada por árvores centenárias, a antiga casa do hortelão da
avó de Tuca recebeu tratamento arquitetônico, sem perder a essência do local,
para criar um dos principais ambientes da produção de café: a sala de provas.
Objetos de arte e móveis confortáveis se misturam à paisagem externa graças aos
janelões de vidro instalados nas paredes da antiga construção. Neste cenário
inspirador, encontramos Lucia, que nos esperava sorridente. A culinarista que
começou como copeira, mas queria estar na cozinha e que amava montar uma mesa,
receber e servir as pessoas, hoje é a responsável pela criação dos pratos que
saem da cozinha da casa-sede da fazenda e, mais: ela é uma das Q Graders da
Santa Alina.

Chegou a hora do cupping! Uma mesa de prova com quatro cafés diferentes foi montada por nossas tutoras Andrea e Bruna, do Momento Café. Instruções dadas, tínhamos a tarefa de avaliar as bebidas usando o novo protocolo – CVA. A mesa foi composta por: Paraíso MG2 (84 pontos), Paraíso CD1 (85 pontos), Catuaí Vermelho natural (86 pontos) e Novo Mundo fermentado (84 pontos). O cupping é um exercício que reforça nossa percepção olfativa e gustativa, importante para distinguir , entre outros, a qualidade do café.
O exercício nos fez concluir
que: 1. Independentemente de receberem a mesma pontuação, as bebidas apresentam
sensoriais diferentes e podem agradar mais a uns que a outros. O que significa
que a pontuação já não é tão importante. 2. Cafés da mesma variedade e região
podem apresentar sensoriais diferentes em função do processamento. 3. O novo
protocolo é mais eficiente quanto a atender à necessidade do consumidor, pois
reforça muito mais os aspectos descritivos do café.
Da Casa Alma, ouvimos o sino
da igreja avisando que já era hora do café. Nos dirigimos para a casa-sede para
a confraternização. O interior da casa, um misto de tradições e histórias de
famílias, se funde à coleção de objetos de arte popular brasileira, vasos de
lírios e orquídeas. Móveis antigos, paredes coloridas, pé-direito altíssimo,
janelas abertas para se perder de vista na bela vista para os terreiros e a
lavoura. Lucia nos recebeu com uma mesa farta de queijos, geleia, tortas,
bolos... Doces e salgados que harmonizaram com o café. Ao redor da imensa mesa
secular, nos reunimos para dar boas-vindas à nova integrante do grupo. Lucia
Migotto ocupará, a partir de agora, a "cadeira de número 14", uma
vaga que o universo conspirou para que fosse dela.
Finalizamos a visita ouvindo
Ave Maria, vinda do alto-falante da igrejinha da fazenda, anunciando que a
noite já estava chegando e era hora de voltarmos para casa.
Seria tão bom se o tempo parasse ali, retratando, sem pressa, o real significado do café: reunir pessoas de bem, de bom coração e do bem das ações. Tuca Dias venceu os obstáculos do desafio que se propôs. Sem ela, a fazenda teria sido vendida e, quiçá, perdido seu encanto. Sem ela, pessoas como Edvaldo e Lucia talvez não teriam tido a oportunidade de descobrir seus próprios talentos como pessoas, como profissionais realizados que hoje são. Sem Tuca, não teríamos tido a oportunidade de viver essas horas num lugar em que se entende que o café é especial porque as pessoas que o produzem também o são.
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